O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia (CRMV-BA) foi surpreendido na edição de quarta-feira do Telejornal Cidade Alerta Bahia, da Record TV Itapoan. O secretário de Saúde do estado, o médico cardiologista Fábio Villas Boas pôs em dúvida a necessidade do Médico-Veterinário ser incluído no grupo prioritário da vacinação da covid-19 como profissionais da área da saúde.

Em entrevista ao apresentador Adelson Carvalho, Villas Boas afirmou que “os médicos-veterinários foram incluídos no grupo prioritário número 1, exclusivamente porque alguns deles trabalham em equipes de saúde. Esses todos aqui na Bahia já foram vacinados. Os demais médicos-veterinários que não atuam com seres humanos portadores de covid não têm razão para serem vacinados como grupo prioritário”.

A afirmação nos causa espanto, revolta, repúdio e repulsa, por mostrar a total falta de conhecimento e informação do secretário Fábio Villas Boas. Primeiro porque ele erra ao dizer que a inclusão dos médicos-veterinários na prioridade se deu exclusivamente porque “alguns deles trabalham em equipes de saúde”. Essa inclusão se deu porque o médico-veterinário é um profissional da saúde devidamente reconhecido pelo Ministério e pelo Conselho Nacional de Saúde, por meio da resolução nº 287, de 1998.

Segundo porque, mais uma vez ele erra ao dizer que todos os profissionais médicos-veterinários que trabalham em equipes de saúde no estado já foram vacinados. Nem todos os profissionais que integram as equipes de fiscalização e vigilância sanitária da Bahia foram vacinados. Inclusive, muitos deles estão adoecendo, quando não, morrendo em decorrência da covid-19.

E terceiro porque, apesar de todo o diálogo aberto pelo CRMV-BA e pelos médicos-veterinários do estado, o secretário parece preferir manter-se no negacionismo a reconhecer que médicos-veterinários são grupo prioritário, são profissionais da saúde e por essa razão integram o Plano Nacional de Imunização.

Por diversas vezes oficiamos e informamos o secretário e o Comitê Interestadual Bipartite (CIB) que o médico-veterinário atua em várias frentes, entre elas, a identificação e controle de doenças transmitidas de animais para seres humanos. Portanto, fica evidente a importância da vigilância da saúde entre seres humanos, animais e meio ambiente.

Os médicos-veterinários não querem furar a fila. O CRMV/BA reforça que não solicita a vacinação de médicos-veterinários em detrimento de idosos, pessoas com comorbidades e dos profissionais que atuam no contato direto com pacientes humanos infectados. A vacinação dos médicos-veterinários, assim como de todos os outros profissionais de saúde, deve considerar o posicionamento destes profissionais e seus assistentes na ordem de vacinação de acordo com sua real exposição ao risco.

Sobre o risco, o médico-veterinário que atua na clínica está exposto não somente por vontade própria ou por interesse econômico, mas sim em virtude de uma obrigação sanitária. Da mesma forma, o responsável pelo animal não se desloca para um estabelecimento de assistência veterinária ou chama um médico-veterinário para atendimento domiciliar por diversão ou lazer, mas sim para preservar vidas que também importam. Tanto a vida de seus companheiros de estimação quanto à vida daqueles animais que irão prover alimentos às famílias dos brasileiros, como é o caso dos animais de produção.

Nesta relação, tanto o médico-veterinário quanto o responsável pelo animal acabam expostos à contaminação. Não porque são imprudentes, egoístas e negligentes, mas sim porque um terceiro, um ser vivo, necessita de auxílio, precisa de atendimento e não pode buscá-lo por si só.

Para evitar a circulação de famílias que estão contaminadas com covid-19 e cumprindo isolamento, os médicos-veterinários se expõem e atendem em domicílio para prestar assistência ao ser vivo que necessita de cuidados. Atendem diariamente nos estabelecimentos veterinários, pois não se pode negar atendimento em casos de emergência e urgência. Mesmo tomando todas as precauções, o profissional não sabe se o responsável pelo animal está ou não contaminado com o vírus da covid-19, expondo-se a risco involuntariamente.

 

O médico-veterinário é um agente de saúde quando atua na área de vigilância sanitária, de modo a contribuir com o correto funcionamento de estabelecimentos comerciais que manipulam alimentos, de modo a garantir segurança à sociedade.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2019 a pedido do Ministério da Saúde, 72% dos lares brasileiros tinham cães e gatos vacinados contra raiva, porcentagem que caiu em relação a 2013, quando o valor era de 75,4% de animais vacinados. Com certeza, em meio à pandemia de covid-19, não é desejável que esse percentual de vacinação de animais caia ainda mais, deixando a população suscetível à transmissão doenças que passam dos animais para o homem.

Desde o início da pandemia, os serviços veterinários foram considerados essenciais por organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e a Associação Mundial de Veterinária (WVA), bem como pelo Governo Federal por meio do Decreto nº 10.282, de 20 de março de 2020 (artigo 3º, §1º, incisos XVI , XVII e XVIII).

A chancela internacional e o decreto presidencial vieram por reconhecer que médicos-veterinários e suas equipes atuam na prevenção de doenças zoonóticas, aquelas transmissíveis do animal ao homem, no gerenciamento de emergências e enfretamento de pandemias, como a que ocorre atualmente com a covid-19, além de terem competência para prestar os cuidados médicos essenciais aos animais, garantindo saúde e bem-estar, com capacidade para mitigar os riscos de disseminação do vírus SARS-Cov-2.

Deste modo, secretário Fábio Villas Boas, o que querem os profissionais médicos-veterinários é apenas que sejam cumpridas tais determinações, sem julgamentos ou preconceitos, a fim de preservar a sua saúde e a de toda população baiana.

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