Por Paulo Bahiano

Se sente em um zoológico nessa quarentena?

Foto: Divulgação

 

Com esse período da quarentena, e as pessoas ficando a maior parte do tempo em casa e precisando reinventar sua rotina de trabalho e suas relações sociais, tem sido comum diversas pessoas se sentindo como animais em zoológicos e movimentos contrários a estas instituições conservacionistas, porém de forma subjetiva e pejorativa, bem como, sem compreender a sua função e as linhas de trabalhos atuais, conforme a legislação brasileira.

Mas dessa vez não vou falar de zoológicos como instituições conservacionistas, suas funções e as vias de recebimento dos animais. Vou propor uma reflexão sobre uma série de perguntas que passeiam na área da saúde mental.

Se sente preso? Se sente preso a ponto de não se conhecer ou se aguentar? Sabe como as pessoas que estão ao seu lado se sentem? Sabe como seus pais se sentem?

Como podemos saber como os animais se sentem, sendo tão complexo a gente entender como se sente o nosso semelhante, tantas vezes tão perto de nós?

Como se colocar no lugar do animal? Vocês já viram um mico leão? Já parou para observar seu comportamento? Acredita que ele é igual a qualquer outro primata? Você se enxerga como primata humano? Acredita que todos seres são iguais, que possuem a mesma exigência biológica e expressam o mesmo comportamento de “felicidade” que você expressaria? Você gostaria de comer apenas ração como os animais que você cria, só para você vê-lo saudável?

O que é essa tal felicidade? É quando você interpreta que o seu cão, dependente de você, vem com a cauda abanando sem parar, compulsivamente, te receber quando chega do trabalho? E por que quando você abre a porta do seu apartamento ele foge? Por que manter as portas fechadas e janelas com redinhas para os gatos não fugirem?

Parece que não são apenas os animais dos zoológicos que estão presos. Porém, muitas pessoas demonstram que estão presas em seus próprios ideais, sem conseguir que a sua vitrola toque outras músicas, pois é mais fácil repetir um repertório já decorado, em vez de conhecerem de fato zoológicos.

A fauna, de fato, agradeceria se toda a energia voltada contra zoológicos, fosse de luta contra o tráfico de animais selvagens e degradação do ambiente, em vez de criar conteúdo contra instituições que recebem centenas de animais por ano; que tratam, e junto com os Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama (Cetas), oportunizam segundas chances para tantas espécies, sendo soltas quando há área de soltura, condições comportamentais e físicas de sobrevivência na natureza.

* Paulo Bahiano é Médico-Veterinário, membro da Comissão de Comissão de Animais Selvagens e Meio Ambiente (Crasma) do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia (CRMV-BA) e Mestre em Ciência Animal nos Trópicos pela Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

 

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